Entenda como a BNCC aborda a Língua Portuguesa no Fundamental

LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL

O ensino de Língua Portuguesa dá continuidade às práticas de oralidade e escrita iniciadas na Educação Infantil no campo de experiências Escuta, fala, pensamento e imaginação. As aprendizagens deste campo de experiência na Educação Infantil demonstram que sua finalidade é inserir a criança no universo das culturas do escrito, não como antecipação de processos formais de alfabetização, mas visando ao reconhecimento da função social da escrita e da leitura como fonte de prazer e informação, e empregando a oralidade em diferentes situações como ponto de partida para o trabalho com a língua escrita, em um processo que pressupõe a transição para o Ensino Fundamental.

No Ensino Fundamental, o texto (oral, escrito, multimodal/multissemiótico) torna-se o centro das atividades de linguagem a serem desenvolvidas, implicando um trabalho com a língua não apenas como um código a ser decifrado nem como um mero sistema de regras gramaticais, mas como uma das formas de manifestação da linguagem. Com isso, a finalidade do ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa é permitir o desenvolvimento crítico e reflexivo da criança e do adolescente como agentes da linguagem, capazes de usar a língua (falada e escrita) e as diferentes linguagens em diversificadas atividades humanas. Nessa perspectiva, a BNCC visa também contemplar a cultura digital imbricada na questão dos multiletramentos. A partir disso, são estabelecidos quatro eixos organizadores correspondentes às práticas de linguagem já apresentadas em documentos oficiais anteriores como os PCNs: Oralidade, Leitura/escuta, Produção de textos e Análise linguística/semiótica.

ORALIDADE

Em Oralidade, propõe-se a produção de textos orais, considerando as diferenças entre língua falada e escrita e as formas específicas de composição do discurso oral, em situações formais ou informais. Além disso, a variação linguística deverá ser explorada de acordo com a diversidade de práticas orais de uso da linguagem. O trabalho enfoca a identificação das características de diferentes gêneros textuais/discursivos orais que organizam determinadas atividades humanas. Como exemplo, podemos citar a exposição oral, que pode estar presente em um seminário ou em uma webconferência, prática em que, para expor conteúdo com base em pesquisa ou apresentar opiniões, é necessária uma organização específica. Nessas práticas de linguagem, há alternância dos turnos de fala, ou seja, enquanto alguém expõe oralmente, há outros que escutam.

Além disso, há um intercâmbio entre o oral e o escrito, já que, em alguns casos, aquele que expõe oralmente também preparou por escrito a apresentação, e aquele que ouve anota dúvidas e se prepara para dialogar com o apresentador buscando esclarecer alguns pontos e participar da discussão. Isso implica um trabalho com as relações entre língua falada e língua escrita, considerando também a presença de outras linguagens como a gestualidade, a expressão facial, os elementos semióticos oriundos das TDIC etc. Assim, a composição do discurso oral assume características específicas de acordo com as necessidades de comunicação dos interlocutores envolvidos. O discurso oral, portanto, deve ser tomado como objeto de conhecimento visando levar tanto ao aprendizado de práticas escolares em que a oralidade se faz presente, como também contribuir para a participação do aluno na vida pública. Essa perspectiva de trabalho leva naturalmente à formação para a cidadania.

LEITURA

Em Leitura, o foco está na interação ativa entre leitor/ouvinte/espectador com textos escritos, orais ou multissemióticos oriundos de diferentes campos de atividade humana. Para aprimorar a compreensão leitora, é sugerido que sejam proporcionadas ao aluno diversificadas experiências de ler, ouvir, comentar textos escritos etc. Essas experiências devem incluir a reflexão sobre quem escreveu, para quem, sobre o quê, com que finalidade, em qual tempo e espaço, como o texto circulou e chegou até nós. Nesse processo, fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico e para a formação cidadã, amplia-se o conhecimento de mundo do aluno ao estimular a sistematização de conceitos, a aquisição de informações e a discussão sobre valores.

De acordo com a BNCC, a formação do leitor deve contribuir para sua participação em práticas sociais da cultura letrada, que, em sua diversidade, permitirão aluno apropriar-se progressivamente de diversos gêneros textuais/discursivos e estabelecer relações com outros, mas sempre consciente dos sentidos que produz. No eixo Leitura, ensinar a ler é levar o aluno tanto a reconhecer a importância das culturas do escrito como também a interpretar imagens estáticas e em movimento que constituem muitos gêneros digitais. A leitura literária deve perpassar pela compreensão de como a literatura dialoga com a vida humana, da linguagem literária e sua profunda construção estilística, do fato de como ela pode transcender tempo e espaço. Ler o texto literário não está restrito à compreensão da linguagem escrita, mas se refere a uma ação de recepção crítica e responsiva, o que implica reagir ao texto, dar-lhe uma resposta, concordando ou discordando. Assim, o aluno pode “reagir” ao texto literário escrevendo comentários, debatendo, parodiando, recontando, recriando, criando, porém, o enfoque principal não estará no modelo de escrita, mas sim na possibilidade de incentivar o aluno a estabelecer diálogos, criar suas ideias, demarcar sua memória.

Ler textos literários, portanto, não pode se restringir a atividades de entretenimento ou análise de técnicas de escrita, mas deve atrelar-se à formação do estudante, na consolidação de sua condição humana e na sua vivência emocional e afetiva que dá sentido ao mundo. Em Produção de textos, propõe-se o engajamento das crianças e dos adolescentes em situações reais de produção de textos verbais, não verbais, multimodais/ multissemióticos, considerando o uso das linguagens adequado ao contexto de produção, recepção e circulação. Essas oportunidades de produção devem incluir a constante reflexão sobre variação linguística. A produção de textos sempre será uma atividade sociointeracional, ou seja, produzimos em diálogo com o outro, seja um sujeito, seja outro texto. O interlocutor, assim, é um dos condicionantes da produção textual, o que impõe a adequação do nosso dizer às circunstâncias de produção. Esse processo não deve se configurar como tarefa burocrática, pois deve ser construído como uma atividade em que os alunos se envolvem com as práticas sociais da linguagem, por meio de planejamento, revisão, reescrita e edição de textos.

ESCRITA

As práticas de escrita são iniciadas já no 1º ano do Ensino Fundamental com o apoio do professor, ainda que as crianças não dominem o sistema alfabético de escrita. Espera-se que, no decorrer do Ensino Fundamental, os estudantes aprimorem, gradativamente, essas habilidades até os níveis mais complexos. No eixo Análise linguística/semiótica, as habilidades a serem desenvolvidas vinculam-se às práticas propostas nos eixos Oralidade, Leitura e Produção de textos, focando nos dois primeiros anos, a aprendizagem do sistema alfabético de escrita.

Mantém-se, portanto, o caminho do uso-reflexão-uso (conforme já indicavam os PCNs), que visa levar o aluno a refletir sobre as possibilidades de uso permitidas pelo sistema da língua, oral ou escrita, e das múltiplas linguagens, e a ser capaz de aplicar o recurso mais adequado ao contexto em que está inserido. No que se refere à linguagem escrita, propõe-se a reflexão sobre o léxico e o conteúdo temático, à compreensão das relações de intertextualidade, à identificação da forma composicional, dos aspectos ligados à organização textual, e à construção da coesão e da coerência etc. Os recursos linguísticos focalizam os processos de construção textual, ou seja, os usos são retomados paralelamente às categorias tradicionais da palavra e da frase, porém com enfoque distinto.  Para a linguagem oral, a análise está ligada tanto aos recursos linguísticos próprios da língua falada, como também a elementos paralinguísticos e cinésicos (gestualidade, postura, expressão facial e outros).

Nas atividades de língua, espera-se que os diferentes aspectos da gramática sejam abordados no momento em que se analisa o funcionamento da linguagem em suas variações, o que se torna uma oportunidade para o aluno aprender a decidir pelas formas adequadas a cada situação comunicativa. Há algumas prescrições linguísticas que são estritamente ligadas ao padrão escrito, como acentuação e ortografia, contribuindo para o aprimoramento do domínio da norma-padrão em situações em que esse registro é necessário.

RECURSOS LINGUÍSTICOS

Os recursos linguísticos a serem aprendidos ligam-se à leitura e à produção textual com relevância significativa para a vida real, dando foco a uma aprendizagem ética e crítica diante de problemas autênticos do contexto sociocultural do estudante. Por exemplo, as atividades linguísticas que focalizem os procedimentos coesivos de referenciação podem relacionar-se à reflexão sobre o uso de substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, e como essas referências marcam pontos de vista, valores, apreciações no texto tomado como objeto de conhecimento.

A BNCC destaca que a separação dos eixos se dá apenas por uma questão de organização curricular, pois, no processo de ensino-aprendizagem, tais práticas de linguagem se “interpenetram” e “retroalimentam”. Por isso, foram propostos cinco campos de atuação.

Tais campos de atuação orientam a seleção de gêneros textuais/discursivos, práticas, atividades e procedimentos. A partir de cada campo, a BNCC organiza as práticas de linguagem articulando-as aos respectivos objetos de conhecimento e habilidades para cada ano do Ensino Fundamental, que devem ser desenvolvidos na integração entre os eixos organizadores, de modo indissociável das competências específicas do componente curricular.

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL

  1. Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades de seus usuários e da comunidade a que pertencem.
  2. Apropriar-se da linguagem escrita, reconhecendo-a como forma de interação nos diferentes campos de atuação da vida social e utilizando-a para ampliar suas possibilidades de participar da cultura letrada, de construir conhecimentos (inclusive escolares) e de se envolver com maior autonomia e protagonismo na vida social.
  3. Ler, escutar e produzir textos orais, escritos e multissemióticos que circulam em diferentes campos de atuação e mídias, com compreensão, autonomia, fluência e criticidade, de modo a se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos, e continuar aprendendo.
  4. Compreender o fenômeno da variação linguística, demonstrando atitude respeitosa diante de variedades linguísticas e rejeitando preconceitos linguísticos.
  5. Empregar, nas interações sociais, a variedade e o estilo de linguagem adequados à situação comunicativa, ao(s) interlocutor(es) e ao gênero do discurso/gênero textual.
  6. Analisar informações, argumentos e opiniões manifestados em interações sociais e nos meios de comunicação, posicionando-se ética e criticamente em relação a conteúdos discriminatórios que ferem direitos humanos e ambientais.
  7. Reconhecer o texto como lugar de manifestação e negociação de sentidos, valores e ideologias.
  8. Selecionar textos e livros para leitura integral, de acordo com objetivos, interesses e projetos pessoais (estudo, formação pessoal, entretenimento, pesquisa, trabalho etc.).
  9. Envolver-se em práticas de leitura literária que possibilitem o desenvolvimento do senso estético para fruição, valorizando a literatura e outras manifestações artístico-culturais como formas de acesso às dimensões lúdicas, de imaginário e encantamento, reconhecendo o potencial transformador e humanizador da experiência com a literatura.
  10. Mobilizar práticas da cultura digital, diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes projetos autorais.
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